ECONOMIA
Mercado de deliveries impulsiona o consórcio de motos
ECONOMIA
Diversas atividades surgiram nos últimos anos, voltadas ao atendimento pessoal ou familiar, e até mesmo ao empresarial, proporcionando mais qualidade de vida às pessoas. O delivery, por exemplo, veio para facilitar o dia a dia do consumidor que deseja mais conforto ao adquirir um bem ou um serviço e recebê-lo na comodidade de sua casa, escritório ou em local indicado.
O Brasil lidera os serviços de deliveries na América Latina, com mais de 2,2 milhões de profissionais, segundo o estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Deste total, parcela significativa atua como entregadores, colocando o país em quarto lugar no mercado global.
No setor de entregas por aplicativos, o universo conta com pouco mais de 450 mil profissionais que atuam na ponta do serviço. “Trata-se de um mercado que requer produtos financeiros que facilitem a aquisição do principal instrumento de trabalho desses profissionais: carro ou motocicleta”, explica Luiz Antonio Barbagallo, economista da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).
A forma de aquisição, especificamente de motos, tem no consórcio um de seus principais meios. Segundo a ABAC, o segmento de motocicletas contabilizou boa parcela dos 3,24 milhões de participantes ativos nessa atividade, de acordo com dados de abril deste ano. “Ressalte-se a importância desse mecanismo de autofinanciamento que, ao longo de décadas, vem facilitando a compra por motociclistas de forma simples e econômica”, afirma Barbagallo.
Segundo dados da ABAC, a participação do consórcio entre todos os tipos de financiamentos de motos zero km representa 35,6%. “Sem dúvida, uma presença expressiva, indicando que, cada vez mais, os profissionais desse setor enxergam no planejamento, via consórcio, a melhor estratégia para sua compra como primeiro veículo ou para sua renovação”, diz o economista. Complementa, lembrando que “o desgaste da moto, sem dúvida, leva o profissional a, periodicamente, substituir seu principal instrumento de trabalho”.
Na rotina de um entregador de pratos prontos de alimentos na capital paulista, “é possível calcular que, em média, são realizadas de 15 a 30 viagens por dia e circule de 12 a 15 quilômetros por trajeto, acumulando até 450 km de rodagem”, sugere Barbagallo. “Pode-se concluir que esse profissional, no final de um mês, terá rodado perto de 13,5 mil quilômetros. Anualmente, supondo atividades em 360 dias, atingirá 162.000 km”, complementa.
Nesta simulação, os cálculos foram estimados pelo máximo de viagens e de distâncias. “Mas, mesmo ficando pela metade”, justifica o economista, “teríamos ainda 81 mil quilômetros por ano”.
Com essa totalização, o desgaste do veículo torna-se grande, considerando que, em dois ou três anos, haverá necessidade de substituição. “Ao planejar e adotar o consórcio como estratégia financeira para custear a futura reposição, o profissional poderá economizar e pagar mensalmente a cota do plano de consórcio, durante o uso do seu atual veículo, com parcelas acessíveis, formando ao longo do tempo a poupança com objetivo definido, que, complementada eventualmente por lance, cujo valor poderá ser obtido com a venda da atual motocicleta, permitirá a compra de uma nova”, detalha Barbagallo. E sugere: “Em caso de contemplação por sorteio, quando não há oferta de lance, o profissional do delivery poderá, ao se desfazer da usada, quitar parte ou a totalidade das parcelas vincendas”, finaliza o economista.
Nos últimos quinze anos, o casal Joselane Marinho Barbosa e Carlos Nogueira Pinheiro, de Fortaleza, Ceará, tem utilizado o consórcio para adquirir suas motocicletas para o serviço de entregas de objetos, documentos, alimentos, pequenas cargas, entre outros. “Começamos nossa empresa, a JMLoc, com uma moto, porém, ao observar que o desgaste com o uso era certo, planejamos e fizemos uma segunda cota, pensando na atualização”.
Pinheiro completa, explicando os motivos que o levaram a escolher o consórcio. “Depois de comparar os custos das várias formas de aquisição parcelada, temos optado pelo consórcio, principalmente em razão da inexistência de juros, o que possibilita economizar e aumentar os ganhos”, justifica.
Ao avaliar a durabilidade de uma moto usada no sistema delivery, praticamente todos os dias, Pinheiro verificou que a vida útil tem sido de quatro a cinco anos. “Por isso, temos continuado com o plano de renovação pelo consórcio, tentando a contemplação, oferecendo lance a partir do valor obtido com a venda da moto usada que será substituída”.
Em razão da boa lucratividade conquistada ao longo dos anos, “pudemos ampliar o número de motocicletas que, além das renovações feitas sempre pelo consórcio, nos permitiu possuir atualmente sete unidades na frota. Como algumas estão atingindo três e quatro anos, já temos outras cotas em andamento para substituí-las em breve”.
O consórcio de motos nos últimos cinco anos
O consórcio de motocicletas registrou constante crescimento nos últimos cinco anos, segundo dados da ABAC. Dos 2,36 milhões de participantes ativos anotados em dezembro de 2021, houve avanço de 36,4% e atingiu 3,22 milhões no final do ano passado.
“Trata-se do segundo maior mercado do Sistema de Consórcios”, esclarece Paulo Roberto Rossi, presidente-executivo da ABAC. “Com características únicas, como, por exemplo, parcelas acessíveis, prazos longos, baixa taxa de administração, sem juros, sem IOF, ausência de cobranças retroativas e, principalmente, manutenção do poder de compra, o consórcio vem registrando forte crescimento ano após ano”, destaca Rossi.
Os dados do primeiro quadrimestre deste ano apontaram 505,15 mil cotas comercializadas com R$ 10,75 bilhões em negócios realizados. No período, foram concedidos R$ 5,01 bilhões em créditos para aquisição de bens, com a contemplação de 235,66 mil consorciados e participação potencial de 30,1% do mercado interno.
Ao comentar a modalidade, Rossi sintetizou, afirmando que “o consumidor brasileiro tem, ao longo dos anos, planejado seu futuro, pesquisando, comparando e decidindo muitas vezes pelo consórcio”.
ECONOMIA
Produtividade e saúde mental entram em gestão empresarial
Nos últimos anos, empresas brasileiras aceleraram a automação e metas de produtividade para preservar margens sob pressão econômica. O modelo trouxe performance, mas gerou desgaste ao operar sob forte pressão financeira, dificuldade de contratação e estruturas enxutas. Com as novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), a revisão de estruturas baseadas em acúmulo de funções tornou-se prioritária.
A mudança ocorre enquanto organizações enfrentam custos elevados com saúde mental. Dados do Ministério da Previdência Social registram 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais em 2025 (alta de 15,66% ante 2024), liderados por ansiedade e depressão.
Considerando o recorte de gênero, as mulheres representaram 63,46% dos afastamentos registrados em 2025. São Paulo lidera o número de concessões no país, com 149.375 benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima perda global de US$ 1 trilhão/ano em produtividade por esses males, enquanto a Deloitte aponta que 73% das lideranças sentem maior pressão por performance. A nova NR-1 agora exige o monitoramento de riscos psicossociais, como sobrecarga e desgaste emocional.
“O principal impacto está na revisão da forma como as operações funcionam”, afirma Bruna Ribeiro, advogada trabalhista especialista em risco ocupacional, que continua ao dizer que as empresas normalizaram o excesso de demanda: “Muitas operações passaram a depender de improviso e acúmulo de funções. Enquanto o resultado vinha, isso era interpretado apenas como eficiência. Parte das empresas acabou normalizando modelos sustentados por excesso de demanda e estruturas reduzidas, muitas vezes como resposta às pressões econômicas e operacionais dos últimos anos”.
O impacto financeiro é real: a Gallup indica que profissionais esgotados faltam 63% mais. “A saúde mental impacta diretamente na sustentabilidade da operação”, diz Patrícia Bastazini, da Bastazini Contabilidade, que defende o equilíbrio entre performance e capacidade de sustentação. “O ponto central é encontrar equilíbrio entre performance, responsabilidade e capacidade real de sustentação. Muitas empresas ainda tratam saúde mental apenas como uma pauta subjetiva ou trabalhista, mas o impacto aparece diretamente na sustentabilidade da operação”, avalia.
Segundo ela, o desafio atual das empresas não está em eliminar cobrança ou metas, mas em construir estruturas capazes de sustentar produtividade sem comprometer a estabilidade operacional, retenção e capacidade das equipes no médio prazo.
Lucas Oliveira, da LCS Contabilidade, nota que o desgaste afeta a previsibilidade: “Empresas muito pressionadas convivem com retrabalho e perda de produtividade. Muitas organizações continuam olhando apenas para o resultado imediato e não conseguem medir o quanto estruturas excessivamente pressionadas reduzem a eficiência no médio prazo”.
A sobrecarga atinge os líderes. “As pessoas se dedicam mais, mas avançam menos. Quando o líder não define prioridades, tudo se torna urgente”, pontua Flávio Lettieri, especialista em gestão e desenvolvimento de lideranças. Ele ressalta que “metas agressivas sem clareza de prioridade deixam de ser apenas um problema de gestão e passam a representar um risco organizacional”, exigindo comunicação assertiva e capacitação.
Para Vanessa Queiroz, psicóloga, o problema é estrutural: “Existem equipes funcionando há anos acima da capacidade real de sustentação emocional. Quando pressão constante e ausência de pausa passam a ser padrão de alta performance, a empresa opera sem capacidade de recuperação” e completa: “O que muitas empresas começaram a perceber agora é um desgaste estrutural das operações. Existem equipes funcionando há anos acima da capacidade real de sustentação emocional”.
Segundo ela, o excesso acabou sido incorporado à cultura de produtividade de muitas empresas. “Quando pressão constante, excesso de demanda e ausência de pausa passam a ser vistos como padrão de alta performance, a empresa começa a operar sem capacidade de recuperação”.
A pressão também aumentou em setores marcados por alto volume de conflitos e cobrança emocional contínua, como condomínios e gestão predial.
Para Vanessa Munis, especialista em gestão condominial e comportamento organizacional, síndicos, gestores e equipes passaram a absorver demandas emocionais muito acima do que essas operações tradicionalmente suportavam. “Condomínios se tornaram ambientes de tensão permanente. As equipes lidam diariamente com conflitos, pressão constante e desgaste emocional sem estrutura adequada de suporte”.
Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mostram crescimento das discussões relacionadas a burnout, assédio organizacional e adoecimento emocional nos últimos anos. A advogada Ribeiro conclui que a NR-1 acelera a percepção de que “produtividade sem estrutura aumenta a exposição jurídica e perda de capacidade das equipes”. A mudança exige rever modelos de gestão: o desafio não é apenas produzir mais, mas garantir a sustentação da operação no longo prazo.
Na avaliação dos especialistas, a principal mudança provocada pela nova fase da NR-1 não está apenas na adequação documental exigida pela norma, mas na necessidade de revisão dos modelos de gestão construídos nos últimos anos.
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